Por que a África é pouco falada no jornalismo?
- Matheus Henrique Almeida
- 6 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de nov. de 2024
Apesar de ser importante na história, o continente quase não é abordado nas notícias
Cerca de 1,4 bilhões de pessoas vivem em 54 países da África. Todos os dias, eventos significativos acontecem, mas não são noticiados pela imprensa mundial. Com raras exceções quando se trata de grandes acontecimentos, geralmente desastres ou ocorridos que chocam. Por vezes, nem mesmo assim, se fala sobre o continente, é comum que a população não saiba sobre guerras, governos e mudanças na região. Poucas sabem os fatos sobre o continente, já que a cobertura da mídia tradicional é limitada e não é aprofundada.
Vinícius Assis é um jornalista brasileiro correspondente na África desde 2018 e já cobriu diversos países para diferentes veículos, entre eles a Globo e a BBC Brasil. Perguntado sobre o porquê da baixa atenção dada ao continente, ele responde:
“Vejo o peso do preconceito nisso. Infelizmente, muitos dos que tomam decisões em redações ainda não se deram conta da importância e do potencial do continente africano, que, até 2050, deverá ser a casa de 1/4 da população mundial. Até hoje, prevalece no noticiário internacional de meios brasileiros uma visão eurocentrada . Mas, além de uma certa má vontade em muitas redações com pautas sobre a África, é preciso também pensar na relação custo x benefício. É caro, complicado e às vezes perigoso ser jornalista em boa parte do continente africano. Basta conferir os relatórios da organização Repórteres Sem Fronteiras. Muitas vezes o excesso de burocracia para vistos e permissões também desestimula a cobertura, mesmo quando se pretende ter uma narrativa que pode ser considerada positiva para o continente. Por fim, alguns veículos brasileiros com os quais trabalhei nos últimos 6 anos afirmam que, segundo seus dados de audiência, reportagens sobre esta parte do planeta não estão entre as mais lidas pelos seus públicos.”
Os relatórios que ele referencia mostram que grande parte dos países africanos vivem sob regimes ditatoriais que controlam a imprensa. E mesmo os considerados livres também tem problemas enquanto o funcionamento sem restrições dos veículos e jornalistas. São classificados pela organização em uma escala de liberdade de imprensa como, no máximo, “Satisfatório”.
“Não só pelo tamanho territorial, mas pela importância do continente africano essa cobertura deveria ser maior. Países do continente são responsáveis pela maior parte da produção de minerais fundamentais para se fazer baterias de celular e carros elétricos, por exemplo. Não se fala de futuro sem pensar na África. Qualquer debate sobre emergências climáticas sem a África está incompleto. O continente representa quase 30% da Assembleia Geral da ONU. E especialmente no caso do Brasil por conta de fortes laços históricos e culturais essa atenção deveria ser maior.”. Acrescenta Vinícius.
Apesar do número expressivo de países e demográfico, a África, historicamente, tem pouca ou nenhuma voz nas decisões da Organização das Nações Unidas (ONU). Desde sua criação, após a Segunda Guerra Mundial, a região continuou dependente das suas respectivas metrópoles da era colonial. Tendo assim, seus interesses ignorados. Um reflexo atual disso é o conselho de segurança da organização, que apesar de alegar representar o mundo todo, os países que participam como não-permanentes, são ignorados a partir da decisão de qualquer membro permanente, esse âmbito que não inclui nenhuma nação africana ou até mesmo latina, sendo 4 dos 5 países europeus.
Além do desinteresse da mídia por causa do baixo retorno financeiro e pouco interesse na África, também a conjuntura política complexa da região dificulta a prática do jornalismo. Como citado, muitos países sofrem com pouca liberdade civil e, consequentemente, de imprensa.
“As maiores dificuldades que tive foram a excessiva burocracia para se obter vistos e permissões de trabalho como jornalista, falta de liberdade de imprensa e transparência com gastos públicos, internet cara e instável, em países como Etiópia e Zimbábue, por exemplo, os governantes deixam o país inteiro sem o serviço quando não querem que algum assunto se dissemine”. Finaliza Vinícius


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